FRATERNIDADE LEIGA DE S. DOMINGOS NO PORTO

Abril 29, 2008

VI Centenário da morte de Santa Catarina de Sena

Filed under: Documentos — Gabriel Silva @ 5:35 pm

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

29 de Abril de 1980

1. Numerosas «virgens prudentes», como as louvadas pela parábola evangélica que ouvimos, souberam, nos séculos cristãos, esperar o Esposo com as lâmpadas bem providas de azeite, a fim de participarem com Ele na festa da graça na terra e da glória no Céu. Entre elas, brilha hoje ao nosso olhar a grande e querida Santa Catarina de Sena, flor esplêndida da Itália, pérola brilhantíssima da Ordem Dominicana, estrela de incomparável beleza no firmamento da Igreja, que honramos aqui no 6.° centenário da sua morte, sucedida numa manhã de domingo, pela hora de tércia, a 29 de Abril de 1380, enquanto se estava a celebrar a festa de São Pedro Mártir, por ela tão amado.

Satisfeito por poder dar um primeiro sinal da minha intensa participação na celebração do centenário, saúdo-vos cordialmente a todos, caros Irmãos e Irmãs, que, para comemorar dignamente a gloriosa data, vos reunistes nesta Basílica Vaticana, onde se diria que paira o espírito ardoroso da grande Senense. Saúdo de maneira particular o Mestre-Geral dos Frades Pregadores, Padre Vicente de Couesnongle, e o Arcebispo de Sena, Dom Mário Ismael Castellano, principais promotores desta celebração; saúdo os membros da Ordem Terceira Dominicana e da Associação Ecuménica dos Catarinianos, os participantes no Congresso Internacional de Estudos Catarinianos, e vós todos, caros peregrinos, que percorrestes tantas estradas da Itália e da Europa para vos unirdes neste centro da catolicidade, num dia de festa tão belo e significativo.

2. Nós olhamos hoje para Santa Catarina, primeiramente para admirar o que imediatamente impressionava todos os que dela se aproximavam: a extraordinária riqueza de humanidade, em nada ofuscada mas antes aumentada e aperfeiçoada pela graça, que fazia dela uma ima-gem viva daquele autêntico e são «humanismo» cristão, cuja lei fundamental é formulada pelo irmão e mestre de Catarina, São Tomás de Aquino, com o aforismo conhecido: «a graça não suprime, mas supõe e aperfeiçoa a natureza» (Summa Theol. 1, p. 1, a. 8, ad 2). O homem de dimensões completas é o que se realiza na graça de Cristo.

Quando no meu ministério insisto em chamar a atenção de todos para a dignidade e os valores do homem, que hoje é necessário defender, respeitar e servir, é sobretudo desta natureza, saída das mãos do Criador e renovada no Sangue de Cristo Redentor, que falo: natureza em si boa, e portanto curável na sua enfermidade e perfectível nos seus dotes, chamada a receber aquele «mais» que a torna participante da natureza divina e da «vida eterna». Quando este elemento sobrenatural se enxerta no homem e neste pode actuar com toda a sua força, realiza-se o prodígio da «nova criatura», que na sua transcendente elevação não anula, mas torna mais rico, mais denso e mais sólido tudo o que é autenticamente humano.

Assim a nossa Santa — na sua natureza de mulher dotada abundantemente de fantasia, intuição, sensibilidade, de vigor volitivo e realizador, capacidade e força comunicativa e disponibilidade para a doação de si e para o serviço transfigurada, mas não empobrecida à luz de Cristo que a chama a ser Sua esposa e a identificar-se misticamente com Ele na profundidade do «conhecimento interior», como também a empenhar-se na acção caritativa, social e até política, entre grandes e pequenos, ricos e pobres, doutos e ignorantes. E ela, quase analfabeta, torna-se capaz de fazer que a escutem e leiam, e a tomem em consideração, governadores de cidades e reinos, príncipes e prelados da Igreja, monges e teólogos, por muitos dos quais é venerada precisamente como «mestra» e «mãe».

«É mulher prodigiosa que, naquela segunda metade do século XIV, mostra em si de que foi tornada capaz uma criatura humana e — insisto — uma mulher, filha de humildes tintoreiros, quando sabe escutar a voz do único Pastor e Mestre, e alimentar-se à mesa do Esposo divino, a quem, como «virgem prudente», consagrou generosamente a própria vida.

Trata-se de obra-prima da graça renovadora e elevante da criatura até à perfeição da santidade, que é também realização plena dos valores fundamentais da humanidade.

3. O segredo de Catarina em responder, tão dócil, fiel e frutuosamente, à chamada do seu Esposo divino, pode-se deduzir das explicações mesmas e aplicações da parábola das «virgens prudentes», que ela expressa repetidamente nas cartas aos seus discípulos. Em particular na dirigida a uma jovem sobrinha que deseja ser «esposa de Cristo», ela redige uma síntese de vida espiritual, que vale especialmente para quem se consagra a Deus no estado religioso, mas serve de orientação e guia para todos.

«Se queres ser verdadeira esposa de Cristo — escreve a Santa — convém-te ter a lâmpada, o azeite e o lume».

«Sabes o que se entende por isto, minha filhinha?».

E apresenta o simbolismo da lâmpada: «Pela lâmpada entende-se o coração, que deve parecer-se com uma lâmpada. Tu vês bem que a lâmpada é larga em cima, e em baixo estreita: assim é feito o nosso coração, para significar que devemos tê-lo sempre largo em cima, mediante os santos pensamentos, as santas imaginações e a contínua oração; com a memória sempre aplicada a recordar os benefícios de Deus e sobretudo o benefício do Sangue com o qual. fomos cobertos…».

«Disse-te ainda que a lâmpada é estreita em baixo: assim é também o nosso coração, para significar que deve ser estreito para estas coisas terrenas, não as desejando nem amando desordenadamente, nem as ambicionando em maior quantidade do que Deus quer dar; mas devemos agradecer-lhe sempre, admirando quão docemente ele nos provê, de maneira que nunca nos falta nada…» (Carta 23).

Na lâmpada quer-se azeite. «Não bastaria a lâmpada, se não houvesse azeite dentro. E pelo azeite entende-se aquela doce virtude pequena, da profunda humildade… Essas cinco virgens loucas, gloriando-se apenas e de maneira vã da integridade e virgindade do corpo, perderam a virgindade da alma, porque não levaram consigo o azeite da humildade…» (ib.).

«E necessário, por fim, que a lâmpada esteja acesa e nela arda a chama: sem isso, não bastaria para nos fazer ver. Esta chama é o lume da santíssima fé. Digo fé viva, porque dizem os santos que a fé sem as obras é morta…» (ib.; Cartas 79, 360).

Na sua vida, Catarina alimentou efectivamente com grande humildade a lâmpada do seu coração, e manteve acesos o lume da fé, o fogo da caridade, o zelo das boas obras realizadas por amor de Deus, mesmo nas horas de tribulação e de paixão, quando a sua alma conseguiu a conformação máxima com Cristo Crucificado, até que um dia o Senhor celebrou com ela as místicas núpcias na celazinha onde habitava, feita toda esplendorosa com aquela divina presença (cfr. Vida, nn. 114-115).

Se os homens de hoje, especialmente os cristãos, conseguissem tornar a descobrir as maravilhas que se podem conhecer e gozar na «cela interior», e mesmo no coração de Cristo! Então, sim, reencontrar-se-ia o homem a si mesmo, reencontraria as razões da sua dignidade, o fundamento de todo o seu valor e a altura da sua vocação eterna.

4. Mas a espiritualidade cristã não se esgota num círculo de intimidade, nem leva a um isolamento individualista e egocêntrico. A elevação da pessoa dá-se na sinfonia da comunidade. E Catarina, embora guardando para si a cela da sua casa e do seu coração, vive desde os anos juvenis em comunhão com muitos outros filhos de Deus, nos quais sente vibrar o mistério da Igreja: com os frades de São Domingos, a quem se une em espírito mesmo quando o sino os chama para o coro, de noite, para Matinas; com as Manteladas de Sena, entre as quais é admitida para o exercício das obras de caridade e a prática comum da oração; com os seus discípulos, que vão aumentando até constituírem à volta dela um cenáculo de fervorosos cristãos, que aceitam as suas exortações de vida espiritual e os incentivos à renovação e à reforma, exortações e incentivos que ela dirige a todos em nome de Cristo; e pode-se dizer com todo o «corpo místico de Igreja» (cfr. Diálogo, c. 166), com o qual e pelo qual Catarina ora, trabalha, sofre, se oferece e por fim morre.

A sua grande sensibilidade perante os problemas da Igreja no seu tempo transforma-se deste modo numa comunhão com o Chistus patiens e com a Ecclesia patiens. Esta comunhão está na origem da sua mesma actividade exterior, que em certo momento a Santa é movida a exercer, primeiro com a acção caritativa e com o apostolado laical na sua cidade, e bem depressa num plano mais vasto, com o esforço de alcance social, político e eclesial.

Em qualquer caso, vai Catarina buscar àquela fonte interior a coragem da acção e a inexaurível esperança que a sustenta mesmo nas horas mais difíceis, mesmo quando tudo parece perdido, e é tal fonte que lhe permite influir nos outros, mesmo nos mais altos níveis eclesiásticos, com a força da sua fé e a fascinação da sua pessoa completamente oferecida à causa da Igreja.

Numa reunião de Cardeais na presença de Urbano VI, segundo conta o Beato Raimundo, Catarina «demonstrou que a divina Providência está sempre presente sobretudo quando a Igreja sofre»; e fê-lo com tal ardor, que o pontífice no fim exclamou: «Que há-de temer o Vigário de Jesus Cristo, mesmo que o mundo inteiro se volte contra ele? Cristo é mais poderoso que o mundo, e não é possível que abandone a Sua Igreja» ( Vida, n. 334).

5. Tratava-se de um momento excepcionalmente grave para a Igreja e para a Sé Apostólica. O demónio da divisão penetrara no povo cristão. Ferviam por todo a parte discussões e rixas. Mesmo em Roma havia quem tramasse contra o Papa, não sem o ameaçar de morte. O povo amotinava-se.

Catarina, que não cessava de animar pastores e fiéis, sentia contudo que chegara a hora de uma suprema oferta de si, como vítima de expiação e ao mesmo tempo de reconciliação com Cristo. E por isso pedia ao Senhor: «Pela honra do Teu Nome e pela Tua santa Igreja, eu beberei de boa vontade o cálice da paixão e da morte, como sempre desejei beber; disso sois testemunha desde quando, por Tua graça, comecei a amar-Te com toda a mente .e todo o coração» ( Vida, n. 346).

A partir desse momento começou a definhar rapidamente. Todas as manhãs daquela quaresma de 1380, «se dirigia à igreja de S. Pedro, Príncipe dos Apóstolos, onde, depois de ouvir Missa, ficava por muito tempo a orar; não voltava a casa senão à hora de vésperas», exausta. No dia seguinte, de manhãzinha, «partindo da estrada chamada Rua do Papa (hoje de Santa Clara) — onde residia, entre a Minerva e o Campo das Flores — ia a toda a pressa a São Pedro, fazendo uma caminhada que esfalfaria até um são» (Vida, n. 348; cfr. Carta 373).

Mas em fins de Abril já não conseguia levantar-se. Reuniu então à volta da cama a sua família espiritual. No longo adeus, declarou àqueles seus discípulos: «Entrego a vida, a morte e tudo nas mãos do meu Esposo eterno… Se lhe aprouver que eu morra, tende por certo, filhos caríssimos, que dei a vida pela Santa Igreja, e creio isto por graça excepcional que me concedeu o Senhor» ( Vida, n. 363).

Pouco depois morreu. Não tinha senão 33 anos: belíssima juventude oferecida ao Senhor pela «virgem prudente» que chegara ao termo da sua expectativa e do seu serviço!

Estamos aqui nós recolhidos, a 600 anos daquela manhã (ib., n. 348), para comemorar aquela morte e sobretudo para celebrar aquela última oferta da vida pela Igreja.

Meus caros irmãos e Irmãs, é consolador que tenhais vindo tão numerosos glorificar e invocar a Santa nesta fausta oportunidade.

É justo que o humilde Vigário de Cristo, do mesmo modo que tantos predecessores seus, vos inspire, vos preceda e vos guie em tributar uma homenagem de louvor e acção de graças Aquela que tanto amou a Igreja, e tanto trabalhou e sofreu pela sua unidade e pela sua renovação. E fi-lo com todo o coração.

Agora permiti que vos confie uma recordação final, que deseja ser mensagem, exortação, convite à esperança e estímulo à acção: vou buscá-la às palavras que dirigia Catarina ao seu discípulo Estevão Maconi e a todos os seus companheiros de actividade e de paixão pela Igreja: «Se fordes aquilo que deveis ser, poreis fogo a toda a Itália» (Carta 368); mais, acrescento eu: Deste «fogo» precisa a humanidade mesmo hoje, e até talvez mais hoje que ontem. A palavra e o exemplo de Catarina suscitem em muitas almas generosas o desejo de serem chamas que ardam e, como ela, se consumam para dar aos irmãos a luz da fé e o calor da caridade «que não acabará nunca (1Cor. 13, 8).

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