FRATERNIDADE LEIGA DE S. DOMINGOS NO PORTO

Janeiro 30, 2013

Evangelizar com a imaginação. Artigo de Timothy Radcliffe

Filed under: Formação — Etiquetas: — Gabriel Silva @ 11:37 am

No Ano da Fé, inaugurado pelo Papa Bento XVI no dia 11 de Outubro passado, uma das questões centrais deve ser compreender como a fé pode tocar a imaginação dos contemporâneos para fazê-los se apaixonar por uma mensagem atemporal.

Essa foi a reflexão do teólogo dominicano Timothy Radcliffe na Pontifícia Faculdade Teológica “San Bonaventura” Seraphicum, em Roma, no dia 30 de Outubro passado, por ocasião da abertura do ano académico.

A conferência proferida no instituto de estudos superiores dos Frades Menores Conventuais, foi intitulada “Como a nossa fé pode tocar a imaginação dos nossos contemporâneos“.

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Gostaria de lhes falar sobre o maior desafio para o cristianismo de hoje: como a nossa fé pode tocar a imaginação dos nossos contemporâneos.

Recentemente, eu estava presente numa mesa-redonda em Oxford com o professor Richard Dawkins, um ateu que eu definiria como “agressivo“, e Rowan Williams, então arcebispo de Canterbury. O encontro foi cordial, mas não parecia avançar. Williams era reactivo aos argumentos de Dawkins, conseguia entrar na sua imaginação científica e, de facto, eram muito poucas as afirmações com as quais ele, ou a maioria dos cristãos presentes, podiam não concordar.

Pela sua parte, Dawkins não parecia conseguir fazer a viagem contrária ou ser alcançado pela imaginação cristã de Rowan, que, no fim, propôs que se olhasse para o mundo com gratidão, no sentido da vastidão do amor escondido. Eu tenho a impressão de que Dawkins não entendeu realmente.

É como se alguém sem sensibilidade musical tentasse compreender Bartók. Eu tenho uma grande estima por um frei dominicano pintor chamado Kim em Jong, que uma vez me ofereceu um de seus quadros para o meu escritório em Roma. Era uma grande tela com cores que escorriam sobre um fundo branco. Quando eu o mostrei à minha mãe, ela exclamou: “Meu querido, parece o seu hábito depois de um café da manhã em que você se sujou todo!”.

O desafio contemporâneo

O cristianismo no Ocidente só poderá florescer novamente se conseguirmos envolver a imaginação dos nossos contemporâneos. De facto, não acredito que o ateísmo nos ofereça um desafio intelectual, mas sim um desafio à imaginação.

Muitos de vocês deverão recordar-se do filme Homens e deuses, vencedor do Festival de Cannes e visto por milhões de pessoas. Boa parte do guião é feita de citações directas dos diários e das cartas dos monges da pequena comunidade na Argélia que se haviam integrado profundamente e eram amados numa pequena povoação muçulmano, mas que lentamente se encontraram engolidos pelo violento confronto em andamento.

Um dia, um habitante do lugar disse-lhes: “Nós somos os pássaros que descansam nos nos galhoss, e vocês são os ramos”. Depois, no dia 21 de maio de 1996, a tragédia.

Eu fui ver esse filme com um amigo ateu. O cinema estava cheio de pessoas, muitas delas não se definiram como cristãs. No fim, o silêncio era total, e ninguém queria deixar o cinema até a última linha da ficha técnica.

Eu havia visitado a Argélia quatro semanas depois do seu assassinato, para me encontrar com um irmão dominicano, bispo de Oran, Pierre Claverie: ele recebera ameaças, e eu queria estar perto dele. No dia 1º de agosto de 1996, Pierre também foi assassinado, juntamente com um jovem muçulmano, Mohamed.

Por que não esbocei uma bela teoria sobre a imaginação cristã e, ao invés, remeti a um filme? Porque a imaginação cristã habita no particular. Como o judeu que viveu no Médio Oriente há 2.000 anos, ao qual os seus seguidores conferiram um significado universal. As ideologias que assolaram o século XX, como o comunismo ou o nazifascismo, muitas vezes ofereceram esperanças de uma redenção universal. Wislawa Szymborska, poetisa polonesa ex-comunista e falecida recentemente, disse: “Era por amor à humanidade. Depois entendi que não se deve amar a humanidade, mas sim as pessoas”.

O cristianismo vai contra a corrente porque encontra um significado universal encarnado em pessoas particulares e limitadas. É por isso que os santos sempre foram importantes, porque são pessoas que rejeitaram as identidades pré-confeccionadas oferecidas pela nossa sociedade: celebridades como Brad Pitt, ou cantoras como Beyoncé ou Rihanna. Ouvindo as suas músicas, vestindo-se como elas, muitas pessoas expressam um sentimento de pertença.

Mas é uma ilusão: tememos não ser amáveis assim como somos. O santo é aquele que corre esse risco. E isso também porque a imaginação cristã descerra o universal através do prisma do individual. Uma comunidade, em vez de uma massa, é aquilo que nos ajuda a viver lado a lado como indivíduos.

O que nos é pedido para nos definirmos como cristãos, na teoria, não pode ser comunicado. Muitas vezes, no metro de Londres ou dentro das igrejas, encontram-se frases bíblicas: “Deus é amor”, “Jesus morreu pelos nossos pecados”, e assim por diante. Cheguei a ler até uma que dizia: “Você preferiria dormir com as virgens prudentes ou com as tolas?”. São palavras que não dizem nada para a maior parte das pessoas: elas só têm significado se você já acredita nelas. Devemos descobrir a sua verdade através da imaginação, fazer uma viagem rumo à iluminação.

Quando Jesus encontra as pessoas, ele começa a fazer perguntas. Todo o evangelho de João está estruturado assim: as suas primeiras palavras, de facto, são: “O que vocês procuram?”, e, depois da ressurreição, ele pergunta a Maria Madalena: “Por que choras?”. As parábolas frequentemente também contêm perguntas, como o Bom Samaritano: “Quem é o meu próximo?”.

Mas um crente também é interrogado pelo silêncio: a transmissão da fé não é repetição das afirmações de alguém. A doutrina cristã não dá respostas, não o liga à verdade (isso é o que faz a heresia: uma teoria coerente que sistematiza tudo), ao contrário, pode engana-lo: convida a ir cada vez mais para dentro do mistério da Trindade, do Deus-homem. O dogma cristão nunca é dogmático em sentido negativo. Quando somos capazes de compartilhar a nossa fé, esta assume um frescor sempre novo.

Quando fui visitar o meu pai no fim de sua vida, em 1993, ele pediu-me o seu walkman: queria ouvir novamente As últimas sete palavras de Haydn e o Requiem de Mozart. A única forma de enfrentar a ameaça de sermos aniquilados é através da poesia e da música: um vislumbre distante da criatividade Daquele que ressuscitou Jesus da morte.

Os jovens hoje, pelo menos na Grã-Bretanha e nos EUA, muitas vezes têm uma compreensão da Igreja muito diferente do que as gerações anteriores (que é vista como “conservadora”): pode ser doloroso para os velhos sessentões “liberais” como eu, todo o nosso trabalho parece comprometido.

Mas a minha fé tornou-se o que é justamente quando eu deixei que ela fosse diferente da fé da geração anterior! Quando estamos diante das diferenças, devemos tentar compreender a aventura imaginativa do outro (e tentar-nos colocarmos no seu lugar). Obviamente, a ação de discernimento é muito complexa e requer tempo e energias, mas é indispensável.

Compartilhar um Deus-homem

O filme termina com a cena dos monges que sobem a montanha desaparecendo numa tempestade de neve. As nossas imaginações são tocadas por uma desconcertante vitória da bondade.

Todas as sociedade precisam de histórias assim. Os Salmos estão cheios de raiva contra o destino dos malvados. Mas Cristo recusa-se a chamar os anjos para ser salvo da morte, perdoa os seus inimigos da cruz, e a sua aparente derrota é a paradoxal vitória da ressurreição.

Essa é a história que moldou a cultura ocidental: as nossas cidades estão cheias de igrejas em que encontramos o crucifixo. Mas Pedro e os apóstolos não puderam aferrá-lo “antes”: esperavam um Messias que derrotaria o inimigo. Dois mil anos depois, essa ainda é a imagem dominante: o bom vence matando o mau. Eis como os nossos contemporâneos veem a vitória do bem, à la John Wayne.

Quando Osama Bin Laden foi morto, a palavra em código para a operação foi “Geronimo”, o líder apache a ser morto. De facto, a nossa sociedade continua a viver com uma imaginação em grande parte pré-cristã. A verdade da nossa fé não pode ser transmitida com afirmações abstratas!

O filme também nos comove porque sentimos a proximidade de Deus. Há uma belíssima cena em que Luc, o velho médico, discute com uma jovem sobre a paixão e diz: “Depois eu encontrei um amor maior”.

Assiste-se hoje a uma sede generalizada de Deus. Jesus é chamado de Emanuel, “Deus connosco”. Deus fez-se carne, mas a sua intimidade era inquietante demais e, por isso, ele foi rejeitado de novo para o céu e se tornou Christus victor, o Cristo vitorioso. A partir do século XIII, quando Francisco construí o presépio, podemos imagin-nosr na gruta de Belém.

Em 1923, quando Max Ernst pintou Maria no acto de espancar o menino Jesus [1], as pessoas ficaram escandalizadas, e o quadro foi removido da exposição. Mas os nossos contemporâneos desejam um Deus próximo. Mick Jagger escreveu: “Você não quer caminhar e falar sobre Jesus / Você só quer ver o seu rosto”. Madonna também: “Jesus Cristo, olhe para mim / Eu não sei quem eu deveria ser” [2]. E uma canção de Joan Osbourne intitula-se “E se Deus fosse um de nós?”.

Mãos, olhos, ouvidos de Cristo

Gostaria de reflectir sobre como podemos tornar Cristo presente aqui hoje. Quando amamos alguém, a coisa mais importante é o sorriso, como acontecia com os israelitas com relação a Deus: eles queriam que Ele sorrisse. “Faz brilhar a tua face, e seremos salvos!” (Salmo 80, 4). O texto bíblico mais antigo encontra-se num pedacinho de couro sobre o qual está gravado: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar a sua face sobre ti e conceda-te sua graça! O Senhor volte o seu rosto para ti e te dê a paz!” (Números 6, 24-26).

Jesus identificou todas as pessoas que precisavam daquele sorriso como Zaqueu. Simone Weil disse: “O amor vê o que é invisível”. O amor anseia que o sorriso seja devolvido: essa é a beleza e o risco da missão. Alguém irá sorrir para mim por sua vez? Em Oxford, há muitos mendigos que buscam atrair a atenção. Nós respondemos ao seu olhar?

Um dia, em Kingston, na Jamaica, eu visitei um grande aterro sanitário onde os mais pobres encontravam refúgio. Eu vi um velho barraco de papelão. Quando me aproximei, apareceram uma mãe e o seu filho. Convidaram-me para dentro, oferecendo-me uma Coca-Cola, que, presumo, haviam encontrado no lixo, e o rapazinho convidou-me a trocarmos as nossas camisas. Eu fiquei profundamente comovido: guardei aquela camisa durante anos. Não só eu tinha os visto, mas eles também tinham-me visto, eu existia perante os seus olhos, fui convidado para o seu lar como o seu irmão.

Essa é a nossa primeira missão, oferecer o olhar de amor de Deus, ser o rosto de Deus que se alegra com as pessoas. Pensa-se que os pregadores são pessoas que falam dos púlpitos, mas não há pregação se faltar a escuta anterior. Quando o cego Bartimeu vai ao encontro de Jesus, ele lhe diz: “O que você quer que eu faça por você?”. Jesus escuta. Não somos vendedores ambulantes que apresentam Deus como a resposta para tudo.

Devemos partir das pessoas: onde se encontram e o que querem. Só assim poderemos alcançar os seus desejos mais profundos e compreender a sua linguagem. Às vezes, ficamos assustados ao escutar o que nos é dito ou porque não encontramos respostas, mas, se escutarmos com o coração, Deus nos sugerirá algo! Se, ao contrário, ficamos presos em nós mesmos, nunca seremos capazes de ouvir.

Quando eu era noviço, ficava admirado que muitos irmãos ficavam impacientes ao iniciar a pregação: eu gostava de estudar, mas não me atraía o pensamento de que um dia eu teria que falar. A palavra de Deus não é um simples comunicar factos: Deus pronuncia a sua Palavra, e as coisas vivem. “Haja luz”, e assim foi.

Durante todo o dia deitamos conversa fora, contamos piadas, enviamos mensagens, escrevemos nos blogs, comentamos notícias, fofocamos. Falar é a actividade humana mais importante, mas há uma questão moral: oferecemos às pessoas palavras de vida ou palavras que acusam e denigrem? Oferecemos a palavra de Deus, que é criativa, ou as palavras de Satanás, que são destrutivas? Talvez tratamos as pessoas como lixo?

Quando falamos de fé, alguns poderão ter incertezas, dúvidas, e isso pode ser positivo, porque assim as pessoas verão que ser católico não significa ter todas as respostas. O cardeal Kasper disse que a Igreja poderia ter muito mais autoridade se dissesse mais frequentemente: “Eu não sei”. Acompanhemos, então, as pessoas compartilhando as suas perguntas e perplexidades, caminhemos ao seu lado pensando juntos. A verdadeira doutrina nunca fecha as mentes, mas leva-nos ao mistério de Deus.

Mas chegamos ao mais importante dos sentidos humanos, o tato: Jesus caminhou tocando as pessoas, os corpos dos doentes. Ele tocou leprosos, até mesmo mortos, o que na época o tornaria impuro. E permitiu até que a mulher, provavelmente uma prostituta, lavasse os seus pés com as lágrimas para depois enxugá-las com os seus cabelos. Jesus sentia-se confortável com o seu próprio corpo e com os corpos dos outros. São Tomás de Aquino definiu o tato como “o sentido mais humano”. Quando amamos alguém, o primeiro desejo é tocá-lo: quando você ama, o contato é recíproco.

No ano passado, o Dalai Lama veio visitar a minha comunidade de Blackfriars para um diálogo sobre a contemplação nas diversas religiões: “Nós resolvemos as nossas diferenças – disse ele no fim –, mas ouvimo-nos com os ouvidos bem abertos”. Mas fiquei impressionado com o que ele fez: ele deteve-se perto da cadeira de rodas de uma amiga que sofreu um derrame, apoiando a sua bochecha na dela em silêncio: a personificação da compaixão.

Desde que estou envolvido no trabalho com os doentes de SIDA, descobri a importância do contacto. Na missa conclusiva de uma conferência sobre “Igreja e a sIDA”, um jovem doente chamado Benedict aproximou-se de mim para me dar o beijo da paz. Naquele momento, eu pensei: “Este é o corpo de Cristo que hoje precisa de um abraço”.

Hoje, a sociedade está preocupada com o risco por causa dos abusos sexuais, e o medo é justificado. Mas devemos recuperar essa forma maximamente humana e maximamente cristã de ser o corpo de Cristo. Caso contrário, privaríamo-nos profundamente uns dos outros e correríamos o risco de até mesmo anular a encarnação, se mantivéssemos as distâncias, quando, ao invés, Deus se fez próximo.

No fim de cada missa, somos enviados a ser o corpo de Cristo, ser a sua boca, as suas mãos, os seus ouvidos e o seu rosto, descobrir Cristo no rosto daqueles que encontramos.

Timothy Radcliffe OP

Notas:

1 – Brown D., Discipleship and Imagination, 2000, p. 289.
2 – Brown, God and Grace of the Body. Oxford, 2007, pp. 303-307.

O artigo foi publicado na revista Settimana, em 09-12-2012
Tradução de Moisés Sbardelotto (adaptação a português europeu de Gabriel Siva) publiaca no Instituto Humanitas Unisonos
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/516490-evangelizar-com-a-imaginacao-artigo-de-timothy-radcliffe

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